quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Recomeço

Oi, filho. 

Estou bastante triste por lhe escrever esta última carta. Seu pai e eu estamos nos despedindo de você. Sim, embora estejamos devastados, sei que Deus tomou a decisão certa ao te levar para o céu. Você se foi, mas deixou mudanças significativas nos corações de papai e mamãe. 

Bom, te vimos 4 vezes nestas 14 semanas de sua existência. Parece pouco, mas não foi. Foi intenso, foi surreal. Foi mágico. Foi divino. 

Na primeira vez, como já relatei aqui, ouvimos apenas a batida do seu coração; na segunda, vimos no seu perfil a silhueta de seu nariz e suas mãozinhas e seus pezinhos frenéticos. Você mexia muito, filho. Seu pai e eu ficamos por demais maravilhados, mas ao mesmo tempo, apreensivos e preocupados porque seu coraçãozinho apresentou um probleminha. 

Duas semanas depois resolvemos fazer novo exame, desta vez com Doppler. O médico foi enfático: possivelmente você seria um cardiopata. Voltamos pra casa com uma dor dilacerante. 

Retornamos ao obstetra, e chegando lá, o prognóstico não foi dos melhores. A médica deu várias possibilidades, entre elas, a de que você, com o evoluir da gestação, poderia ter uma melhora ou piora, ou, na mais trágica das hipóteses,  chegaria a óbito ainda no meu ventre.

Meu amor, seu coração estava acelerado! Isso era preocupante, mas voltamos pra casa e oramos a Deus, implorando por um milagre. Por outro lado, deixei que Deus realizasse a sua plena vontade em nossas vidas. Ele nos deu você, mas somente Ele poderia te levar de nós.

Foi o que ele fez, meu filho. Ontem, quando me preparava para ir ao trabalho, observei um sangramento. Pouco, quase insignificante, porém, como sou super mega preocupada, liguei pra minha médica, que me orientou  a fazer uma ultrassonografia, e em seguida levar ao consultório. 

Marcamos o exame. O médico estava te examinando quando percebeu que você não tinha mais batimentos. Seu pai logo notou que algo estava fora de ordem. Eu demorei para perceber. Lembro bem que te vi de lado. Dava para notar sua coluna vertebral. Tão nítida! Foi nessa hora que o médico disparou: "- Ele está morto."

Chorei copiosamente; seu pai, idem. Ainda choramos. Você nos mostrou o que é amor incondicional, filho. 

Filho, você me mostrou um mundo diferente, de abdicações e renúncias. Por você, eu caprichei na alimentação; por você, eu cuidei da minha saúde como nunca antes na história da minha existência!

Filho, por você eu abri mão de toda vaidade. Meu cabelo está feio, minhas roupas, filho, eram uniformes: blusa branca, calça preta, meia e tênis. Como apêndice, uma prateleira de repelentes. 

Filho, abrir mão de vaidades não foi difícil. Difícil, filho, é deixar você ir! Faria tudo de novo por você!

Seu pai não mediu esforços para te deixar confortável. Tudo que eu precisava, lá estava ele para fazer. Você teve o melhor pai do mundo, filho!

Sabemos que essa situação que estamos vivendo hoje acontece aos montes por aí, mas isso, por si só, não nos faz sentir um amor menor por você. Você estava toda formado, com coraçãozinho, bexiga, pés, mãos... Enfim, você era a nossa vida. 

Havia planos, meu filho. Você foi muito desejado. 

Mas entendemos os planos de Deus. Não estamos aqui lamentando pelo ocorrido. Essa minha carta representa o fechamento de um ciclo. Precisava fechar esse momento tão nosso. 

Estas cartas pra você, eu fiz pensando no futuro. Quando você já estivesse conhecendo as primeiras letras, eu as apresentaria pra você. São cartas de amor. São cartas para dizer o quanto amamos você; são cartas que ficariam trancadas até o seu nascimento. Hoje elas se tornaram públicas. Seu pai soube delas ontem. Chorou tanto, que ele precisou  interromper a leitura do nosso segredo, filho. Esse era nosso segredinho. 

Olhando para trás, percebo que Deus, através de você, nos permitiu ver o mundo de outra cor. Você coloriu nossas vidas. 

Sei também que você veio como um ensaio do que Deus ainda nos proporcionará. Creio que você terá um irmão. Tudo no tempo de nosso Senhor. 

Outras pessoas podem estar lendo essa carta e até achando estranho esse relato. Talvez ninguém vá entender, mas não nos importamos com isso.  Cada pessoa vê o ser humano de um jeito. Eu vejo você como nosso filho amado que prematuramente nos deixou sem ao menos nos dar um abraço. Sei que foi o melhor. Deus sabe que talvez não pudéssemos aguentar te ver sofrer, caso viesse a nascer com grave problema de saúde. A natureza é sábia. 

Deus te levou no tempo certo. 

É isso, filho.  

Neste momento estamos nos despedindo de você. Difícil, mas necessário. Seu pai encostou em mim, como de costume, e beijou a minha barriga. Em seguida,  palavras lindas ele te disse, entre elas, "Eu te amo". Essa era a frase de ordem. Você teve o melhor pai do mundo! Você já nos deixa com saudade. 

Vá com Deus. Você, filho, vai sempre estar na nossa memória e em nossos corações. O tempo que esteve conosco foi um dos melhores das nossas vidas. 

Te amamos para sempre, Theodoro. 

Beijo da mamãe e do papai. 


Pra você, filho: 







                                          



Um comentário:

  1. Filho, como dói! Tenho pedido a Deus para essa dor passar. Que Ele restituía nossa alegria. Sei que vc está com o nosso Pai Celestial. Te amo tanto, meu filho!

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